sábado, 5 de dezembro de 2009

POEMA DA SEMANA

CIDADANIA

Cidadania
É fazer democracia.
É ato de repúdio.
Contra a demagogia.
Contra a tirania.
Contra a oligarquia.
É luta solidária
Pela inclusão da soberania.

Cidadania
É dever solidário de um povo.
De ter clareza de consciência
Em saber dar o poder de povo
A quem merece poder de povo.

Cidadania
É cantarmos a mesma canção.
Caminharmos no mesmo chão.
É termos o mesmo sonho de nação.
É construirmos a mesma obrigação
Para termos uma grande nação.


Autor : Everaldo Cerqueira
Poeta baiano

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Quatro frases que fazem crescer o nariz do Pinóquio

Escrito por Eduardo Galeano
13-Ago-2007





1. Somos todos culpáveis pela ruína do planeta.



A saúde do mundo está um asco. 'Somos todos responsáveis', clamam a vozes de alarme universal, e esta generalização absolve: se todos nós somos responsáveis, ninguém o é. Tais como coelhos, reproduzem-se os novos tecnocratas do meio ambiente. É a taxa de natalidade mais alta do mundo: os peritos geram peritos e mais peritos, que se ocupam em envolver o tema no papel celofane da ambigüidade.



Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao 'sacrifício de todos' nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras – inundação que ameaçam converter-se numa catástrofe ecológica comparável ao buraco na camada de ozônio – não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial afoga a realidade para conceder impunidade à sociedade de consumo, a qual é imposta como modelo em nome do desenvolvimento e das grandes empresas que lhes extraem o sumo.



Mas as estatísticas confessam. Os dados ocultos debaixo do palavrório revelam que 20 por cento da humanidade comete 80 por cento das agressões contra a natureza, crime a que os assassinos chamam suicídio e é a humanidade inteira quem paga as conseqüências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não renováveis.



A senhora Harlem Bruntland, que dirige o governo da Noruega, comprovou recentemente que se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, "fariam falta 10 planetas como o nosso para satisfazer todas as suas necessidades". Uma experiência impossível. Mas os governantes dos países do Sul que prometem a entrada no Primeiro Mundo, passaporte mágico que tornará ricos e felizes todos nós, não deveriam apenas ser processados por roubo. Não estão apenas nos gozando, não: além disso, esses governantes estão cometendo o delito de apologia do crime. Porque este sistema de vida que se apresenta como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que nos está enfermando o corpo, envenenando a alma e nos deixando sem mundo.



2. É verde o que se pinta de verde.



Agora os gigantes da indústria química fazem a sua publicidade em cor verde, e o Banco Mundial lava a sua imagem repetindo a palavra ecologia a cada página dos seus relatórios e tingindo de verde os seus empréstimos. "Nas condições dos nossos empréstimos há normais ambientais estritas", esclarece o presidente do supremo banco do mundo.



Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de contaminação. Quando o Parlamento do Uruguai aprovou uma tímida lei de defesa do meio ambiente, as empresas que lançam veneno para o ar e apodrecem as águas sacaram subitamente a sua recém comprada máscara verde e gritaram a sua verdade em termos que poderiam ser assim resumidos: "os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotar o desenvolvimento econômico e a espantar o investimento estrangeiro".



O Banco Mundial, em contrapartida, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro. Talvez por reunir tantas virtudes, o Banco manejará, junto à ONU, o recém criado Fundo para o Meio Ambiente Mundial. Este imposto sobre a má consciência disporá de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para financiar projetos que não destruam a natureza.



Intenção inquestionável, conclusão inevitável: se esses projetos requerem um fundo especial, o Banco Mundial está a admitir, de fato, que todos os seus demais projetos fazem um fraco favor ao meio ambiente. O Banco se chama Mundial, assim como o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem paga, manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato onde come.



Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governa nossos países cativos que a título de serviço da dívida pagam aos seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e lhes impõe a sua política econômica em função do dinheiro que concede e promete.



A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite estufar de quinquilharias as grandes cidades do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, apodrecem as águas que os alimentam e uma crosta seca cobre desertos que antes foram florestas.



3. Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra.



Pode-se dizer tudo de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bom Al sempre enviava flores aos velórios das suas vítimas. As empresas gigantes da indústria química, petrolífera e automobilística pagaram boa parte das despesas da Eco 92, a conferência internacional que no Rio de Janeiro se ocupou da agonia do planeta.



E essa conferência, chamada Cimeira da Terra, não condenou as transnacionais que produzem poluição e dela vivem, e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de comércio que torna possível a venda de veneno. No grande baile de máscaras do fim do milênio, até a indústria química veste-se de verde.



A angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do mundo, que para ajudar a natureza estão inventando novos cultivos biotecnológicos. Mas estes desvelos científicos não se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química, procuram sim novas plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas de sementes do mundo, seis fabricam pesticidas (Sandoz, Ciba-Geigy, Dekalb, Pfiezer, Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas.



A recuperação do planeta ou o que nos resta dele implica a denúncia da impunidade do dinheiro e a liberdade humana. A ecologia neutral, que se parece antes com a jardinagem, faz-se cúmplice da injustiça de um mundo onde a comida sã, a água limpa, o ar puro e o silêncio não sã direitos de todos e sim privilégios dos poucos que podem pagá-los.



Chico Mendes, operário da borracha, caiu assassinado em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por crer naquilo que acreditava: que a militância ecológica não pode ser divorciada da luta social. Chico acreditava que a floresta amazônica não poderá ser salva enquanto não se fizer a reforma agrária no Brasil. Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados a cada ano na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão para as cidades abandonando as plantações do interior.



Adaptando os números de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentar pela invasão incessante de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem mudar dentro dos limites da ecologia, surda perante o clamor social e cega perante o compromisso político.



4. A natureza está fora de nós.



Nos seus 10 mandamentos, Deus esqueceu de mencionar a natureza. Dentre as ordens que nos enviou do monte Sinai, o Senhor teria podido acrescentar, por exemplo: "Honrarás a natureza da qual fazes parte". Mas isso não lhe ocorreu.



Há cinco séculos, quando a América foi apresada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu a ecologia com a idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestir jamais descascavam o tronco inteiro, para não aniquilar a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansar a terra.



A civilização que vinha impor as devastadoras monoculturas de exportação não podia entender as culturas integradas na natureza, e confundiu-as com a vocação demoníaca ou a ignorância. Para a civilização que se diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que era preciso domar e castigar a fim de que funcionasse como uma máquina, posta ao nosso serviço desde sempre e para sempre.



A natureza, que era eterna, devia-nos escravatura. Muito recentemente soubemos que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e soubemos que, como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala em submeter a natureza, agora até os seus verdugos dizem que há que protegê-la. Mas tanto num como noutro caso, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós.



A civilização que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento e o grandote com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper o seu próprio céu.





Eduardo Galeano, escritor uruguaio, é autor de “As veias aberta da América Latina”, entre outros livros.



Publicado originalmente em http://www.resumenlatinoamericano.org/

http://www.correiocidadania.com.br/content/view/709/

6º Programa Cidadania e Socialismo

Parte 1:


Parte 2:


Parte 3:


Parte 4:


Parte 5:


Parte 6:


Parte 7:

domingo, 22 de novembro de 2009

FRASE DA SEMANA

“ CONSCIÊNCIA NEGRA É A PERCEPÇÃO PELO HOMEM NEGRO DA NECESSIDADE DE JUNTAR FORÇAS COM SEUS IRMÃOS EM TORNO DA CAUSA DE SUA ATUAÇÃO – A NEGRITUDE DE SUA PELE – E DE AGIR COMO UM GRUPO, A FIM DE SE LIBERTAREM DE CORRENTES QUE OS PRENDEM A UMA SERVIDÃO PERPÉTUA “

Steve Biko – ativista do movimento anti-apartheid na África do Sul, morto por policiais em 1977.

Mudanças na mídia: teles em ação

Escrito por Luiz Antonio Magalhães
17-Nov-2009


O sistema de comunicação do Brasil está mudando. De forma rápida e, provavelmente, sem caminho de volta. Muita gente já percebeu, mas talvez não tenha ainda a real dimensão do que está ocorrendo. A cada dia que passa, fica mais claro o posicionamento das operadoras de telefonia - fixa e móvel -, que apenas aguardam modificações na legislação para entrar de cabeça no mercado de mídia - televisão, especialmente. Na internet, veículo em que as teles já podem atuar, é possível perceber o movimento de forma bastante clara. Vamos aos fatos concretos.


Na semana passada, o Observatório da Imprensa, site do qual este colunista é Editor Executivo, foi comunicado pelo portal iG, hoje umbilicalmente ligado à operadora Oi, que o contrato de hospedagem e fornecimento de conteúdo não seria renovado. A partir de dezembro, o Observatório estará hospedado em outro servidor e em janeiro deixará de receber a mensalidade que o iG pagava - um recurso importante para a operação do site. E não foi só o Observatório. Praticamente todos os parceiros do iG em situação semelhante à do OI já foram avisados (ou estão sendo) sobre a não-renovação dos contratos. A idéia do portal iG agora é reforçar a sua marca. Para tanto, contratou o jornalista Eduardo Oinegue, ex-Veja, que comanda a reestruturação, ou, em palavras mais chiques, o "reposicionamento da marca".


Desde que assumiu, Oinegue vem provocando um verdadeiro terremoto no mercado de trabalho jornalístico, contratando profissionais com salários bem altos. Um repórter que cobrirá o Congresso Nacional em Brasília vai receber R$ 12 mil mensais. Somando os encargos trabalhistas, é o mesmo que o iG pagava ao site parceiro Congresso em Foco, que possui uma redação bastante aguerrida e vem recebendo prêmios de jornalismo pela excelência do seu trabalho. Com dinheiro para gastar, Oinegue, porém, preferiu montar sua própria redação em Brasília, sob o comando do experiente Tales Faria. Contratou Matheus Leitão, filho de Marcelo Netto e Míriam Leitão, o repórter que deu o "furo" do caso Francenildo para a Época, e Christiane Barbieri, ex-Folha, com passagem relâmpago pelo Brasil Econômico. Em São Paulo, Eduardo Oinegue já tirou Guilherme Barros da mesma Folha e deu a ele uma coluna no portal, com dois repórteres - repórteres mesmo, não estagiários.


Mas tudo isto é na verdade apenas a ponta do iceberg, para usar um jargão proibido em qualquer redação séria. O iG está rico e forte porque por trás dele está a Oi. Isto é fato. Pouco tempo atrás, a revista Veja deu uma notinha na coluna Radar, de Lauro Jardim, informando que a Oi estaria procurando um jornal impresso para comprar. E pelo que este colunista apurou, tão logo a legislação permita, a operadora entra também no mercado de televisão.


A Telefônica, aliás, já oferece TV por assinatura, também não está parada e embora seu investimento em internet seja bem mais comedido que o do iG, o modelo é o mesmo: aposta no conteúdo próprio.


É evidente que em poucos anos o panorama da mídia brasileira será outro. A Oi nasceu com faturamento de R$ 30 bilhões ao passo que a Rede Globo, líder entre as emissoras brasileiras, não consegue mais do que R$ 8 bilhões por ano. A diferença é brutal. A Telefônica de Espanha, por exemplo, tem de lucro o que a Globo fatura por ano. Não há competição possível, é óbvio que as teles vão engolir as emissoras nacionais todas e dominar este mercado. Os mais espertos - e a Globo é espertíssima - poderão se tornar fornecedores de conteúdo para as teles, que não têm, ainda, know-how neste ramo.


E, afinal, como será o futuro da mídia brasileira com a preponderância das teles? Não dá, ainda, para saber. Vai circular mais dinheiro, porém haverá também muita sinergia entre as empresas subsidiárias, no campo de mídia, das enormes companhias de telefonia, cujo core business sempre será telefonia mesmo...


Alguns românticos terão saudade do tempo das empresas familiares, talvez esquecendo o quão ruim também foram as administrações deste tipo no jornalismo brasileiro. A questão das teles não é de todo nefasta para o mercado de trabalho dos jornalistas, por exemplo, mas o é para a construção de uma nação soberana e dona de seu próprio nariz.


Nada contra a participação de estrangeiros na mídia brasileira, que de resto, pelo menos no que se refere à televisão a cabo, já existe, é uma realidade. Porém, uma boa regulamentação que imponha certos limites ao gigantismo das teles pode equilibrar o jogo e permitir que o Brasil possua um sistema de mídia mais parecido com o europeu do que o norte-americano.


Luiz Antonio Magalhães é jornalista e Editor Executivo do Observatório da Imprensa, onde este texto foi originalmente publicado.

Torós e marolinhas

Escrito por Léo Lince
19-Nov-2009



O ainda diretor de Política Monetária do Banco Central, Mário Torós, foi vitimado pela maldição da sexta-feira 13. Achou de conceder no dia maligno uma entrevista ao jornal "Valor Econômico" e deixou furiosos os seus coleguinhas da alta costura financeira. Circulam no mercado, no formato fofoca de feira, as mais variadas versões do episódio.


O aprisionamento do governo aos desígnios da casta financeira é operado pelo BC e requer sigilo absoluto. O manto de chumbo do completo silêncio deve pesar sobre as transações biliardárias que acontecem ali. Daí o mal-estar provocado pela entrevista.


Os jornais grandalhões, seguindo a orientação do Lula, noticiaram o episódio sem qualquer preocupação investigativa ou crítica. Estilo fuxicos da Candinha. Um "coleguinha" afirmou que Torós quis mandar recados para o mercado, "distribuir currículo". Veio do Santander e, como não há quarentena, deve voltar para a banca privada, seguindo a tradição promíscua dos vasos comunicantes entre "controladores" e "controlados". Outro "colega" pespegou ao demissionário a pecha de "arrogante": passou a imagem de que foi, na crise, o salvador da pátria financeira. Ciúmes.


As barbeiragens do ministro da Fazenda, que tornou públicas informações estratégicas para segurar o câmbio na crise, e o segredo de polichinelo sobre a carta de demissão de Meirelles nos idos de abril, são questões de "lana caprina" perto de outras informações reiteradas, e não reveladas, na entrevista em pauta. Houve, e esse teria sido o pior momento da crise no Brasil, uma corrida bancária que se seguiu à quebra do Lehmann Brothers. O risco de quebradeira geral foi contornado pela liberação do compulsório.


Uma farra que alcançou a espantosa quantia de cem bilhões de reais, 70% da base monetária. "Jogamos dinheiro de helicóptero para combater a crise de liquidez", afirma Torós em sua poética futurista. Ele diz ainda que em outubro do ano passado, dia 10, "de R$ 30 bilhões a 40 bilhões migraram dos pequenos para os grandes bancos".


O próprio presidente do BC, Henrique Meirelles, também num dia 13, em setembro passado, tratou do mesmo tema e foi até mais detalhista. Segundo ele, grandes empresas brasileiras (não disse quais) se empanturraram de derivativos tóxicos e estavam quebradas. Tais empresas tinham contratos com bancos internacionais e linhas de crédito com grandes bancos nacionais (não disse quais), que também estariam quebrados sem a providencial ajuda do Banco Central. A propalada solidez do nosso sistema bancário, pelo que foi declarado, não passa de balela fora dos limites da propaganda. Palavra do presidente do Banco Central.


A liberação de R$ 100 bilhões do compulsório para os banqueiros, tanto para o presidente quanto para o demissionário diretor de Política Monetária do Banco Central, foi o toque de gênio que nos livrou da catástrofe. Pelo discurso redondo da ideologia dominante, que defende a injeção maciça de recursos públicos nos pontos fortes do poder privado, tudo bem. Mas a história deste período ainda será reescrita várias vezes.


Só então teremos condições de definir melhor as dimensões de uma crise que navega entre torós e marolinhas.


Léo Lince é sociólogo.
http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3984/45/

domingo, 15 de novembro de 2009

FRASE DA SEMANA


“ A IMPRENSA É A JANELA PELA QUAL A SOCIEDADE RESPIRA O AR DA LIBERDADE “

Autor desconhecido

Investimentos perdem espaço no Orçamento para gastos com juros

Secretaria de Comunicação
Ter, 10 de Novembro de 2009 00:09

Maria Lucia Fatorelli /Auditoria Cidadã

Apesar de a relação dívida pública/PIB ter caído nos últimos anos, a Auditoria Cidadã frisa que a continuidade da ciranda financeira, mesmo com a crise, é mais uma justificativa para o funcionamento da CPI da Dívida, em andamento no Congresso. Isso porque a desvalorização do dólar provocada pelos juros altos continua incentivando a evasão de divisas.

As remessas de lucro das empresas transnacionais estão subindo rapidamente e atingirão US$ 22,3 bilhões em 2009, conforme estimativa do Banco Central (BC).

"É importante ressaltar que esse valor é quase igual à previsão de entrada de investimento direto no país este ano, de US$ 25 bilhões. Ou seja: a entrada de investimento supostamente produtivo no país se traduz em uma futura remessa imensa de lucros ao exterior", destaca economista Maria Lúcia Fatorelli, da Auditoria Cidadã.

Nesta entrevista exclusiva ao MM, Maria Lúcia pondera que a dívida, além de consumir 30% do Orçamento, tem prioridade sobre outros gastos: "O que vai para discussão no Congresso é o Orçamento fora a divida. Discute-se quais os cortes que serão feitos para pagar a dívida. Mesmo na crise, o governo divulgou que o superávit primário foi reduzido, mas por que duas medidas provisórias (435 e 450) autorizaram um verdadeiro rapa no caixa em várias rubricas vinculadas legalmente?", indaga.

Como a CPI da Dívida foi aprovada no Congresso mesmo sendo tão pouco noticiada?
Nossa iniciativa sempre procurou articular com grupos de parlamentares, como Sergio Miranda (PDT-MG) e Drª Clair (PV-PR), que sempre nos apoiaram. Na legislatura passada, eles tentaram colher assinaturas para realização da CPI, mas sem sucesso. Agora, o deputado Ivan Valente (PSOL-SP) conseguiu. Outro fato que ajudou foi a participação de parlamentares da América Latina no seminário realizado no Congresso em novembro do ano passado. Em dezembro, tivemos audiência com Arlindo Chinaglia (PT-SP), então presidente da Câmara e que apoiou a CPI. Não é ainda a auditoria prevista na Constituição, mas é um passo muito consistente.

Desde dezembro, como o processo evoluiu?
Começamos outra luta. Depois de criada, a CPI tinha de ser instalada, mas isso só é possível quando os partidos indicam seus representantes e logo começou o boicote. Já com Michel Temer (PMDB-SP) na presidência da Câmara, começamos a procurar os partidos. O presidente da Câmara tem a prerrogativa de indicar os representantes, quando os partidos não se manifestam. E, se o presidente não o faz, ainda existe a posição de ir ao Supremo. Mas até aqui não foi necessário. No entanto, falta ainda formar grupos de trabalho. Sem isso, os deputados não terão como se debruçar sobre os documentos. No Equador, foram formadas equipes de trabalho com participação da sociedade.

Como vê a atuação da mídia hegemônica no caso?
A mídia não fala sobre isso. O que temos conseguido é trazer entidades para acompanharem as reuniões. Fazemos boletins semanais (www.divida-auditoriacidada.org.br). Estamos com uma rede internacional. Recebemos apoio de várias entidades, como a Federação Luterana Mundial (FLM), que tem sede na Noruega.

Eles querem fazer manifestação formal de apoio e saber mais detalhes para se posicionarem de acordo com a situação aqui no Brasil. A FLM está presente no mundo inteiro e tem credibilidade reconhecida. Estamos furando o bloqueio da mídia com a participação cidadã através de entidades de capilaridade mundial - no site existe uma lista (www.divida-auditoriacidada.org.br). Há muitas entidades da América Latina e Europa.

A redução da relação dívida/PIB significa que esse passivo está sob controle?
Esse é o argumento de quem não quer tocar no assunto. Os grandes meios de comunicação, que de certa forma são financiados pelo sistema financeiro privado, não querem acabar com o privilégio que o endividamento público representa no Brasil. Se a dívida não fosse relevante, por que mais de 30% do Orçamento executado no ano passado foram prioritariamente destinados a ela?

No passado, esse comprometimento era até maior. Outro aspecto relevante: a dívida é um gasto prioritário. O que vai para discussão no Congresso é o Orçamento fora da divida. Discute-se quais os cortes que serão feitos para pagar a dívida. Mesmo na crise, o governo divulgou que o superávit primário foi reduzido, mas por que duas medidas provisórias (MPs 435 e 450) autorizaram um verdadeiro rapa no caixa em várias rubricas vinculadas legalmente?

Um dos setores que foram prejudicado pelas MPs foi a própria administração tributária, que tem um fundo para aparelhar as aduanas (Fundaf), do qual foram retirados R$ 5 bilhões em 2007 e 2008. As pesquisas com o petróleo perderam muito também. Cerca de R$ 20 bilhões foram desviados da pesquisa e da preservação ambiental.

Então, o superávit diminuiu porque outros recursos foram destinados para a dívida. Os estados da federação pagam suas dívidas, federalizadas no início do governo Fernando Henrique, para a União, que transfere diretamente para o pagamento da dívida pública. Então, não é somente o dinheiro do superávit que vai para a dívida. E tudo isso amparado por lei, que garante esse privilégio. Até na Constituição foi incluído inciso no texto que diz que a dívida tem de ser paga de maneira prioritária. Não há nenhum artigo que diz ser prioritário não deixar os brasileiros morrerem à mingua.

A própria Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) limita vários direitos e não limita gastos com a dívida...

Sim. O BC, só no primeiro semestre, teve prejuízo de R$ 96 bilhões. A LRF diz que o prejuízo do BC será integralmente coberto pelo Tesouro. É dinheiro nosso. Quem lucrou foi quem comprou títulos da dívida, principalmente os estrangeiros. E eles estão entrando com dólares, em queda no mundo inteiro. O BC compra tudo e com esse "mico" investe em títulos da dívida norte-americana. Ou seja, financia as políticas deles e quem paga a conta somos nós.

Com as recentes quedas na taxa básica de juros (Selic), acabou a ciranda financeira?
Diz-se que a dívida está sob controle, mas o montante já está em R$ 1,8 trilhão. Mas mesmo neste período de deflação real, juros em 8% é uma excrescência, ainda mais se levarmos em conta a troca da moeda que está ocorrendo (dólares em queda, por reais em alta). Tudo com isenção de imposto para estrangeiros. Não há investimento no mundo comparável à divida pública brasileira. Ela garante isenção tributária, liberdade de saída, troca moeda em queda por moeda que está se valorizando e uma tem remuneração absurda.

Esse conjunto de fatores transformou o Brasil em verdadeiro cassino, um porto seguro para a especulação. Só quem ganha com isso vem com o discurso que o problema está ultrapassado.

E quem perde?
O cidadão comum, que enfrenta transporte público decadente para ganhar salário baixo pagando imposto na fonte para não receber serviço público de qualidade. Esse brasileiro, se souber a farra que está sendo feita com seu dinheiro, que, inclusive, é tributado sobre o consumo, já que cerca de 60% da arrecadação provêm de impostos indiretos, inclusive, sobre a comida, e que a subtração de seus direitos está diretamente ligada ao endividamento publico será tomado de indignação. Por isso vem o pano quente de dizer que o problema está resolvido.

Nossa luta já dura dez anos e vai continuar até o dia em que conseguirmos levar a esse brasileiro que está pagando essa conta caríssima pela subtração dos seus direitos pelo menos o direito de saber que conta é essa. A auditoria só quer saber a verdade. As providências que virão depois são para depois.

Não estamos falando de calote. A suspensão do pagamento é apenas uma das decisões que podem ser tomadas. Queremos primeiro investigação e transparência para saber quem assumiu a dívida, quem se beneficiou e onde está a contrapartida.

No Equador, ficou provado que dívida contraída com bancos privados decorria de fraudes e juros sobre juros. Por isso, o presidente não precisou recorrer a nenhum tribunal para reconhecer apenas 30% do montante. E 90% do mercado concordaram imediatamente. Só em 2008, a redução do débito já significou aumento de 70% nos gastos com saúde e educação.

Fonte: http://www.monitormercantil.com.br/mostranoticia.php?id=68223