quarta-feira, 28 de abril de 2010

FRASE DA SEMANA

"SEI QUE POSSO NÃO FICAR PARA A COLHEITA, MAS INSISTO EM MORRER SEMENTE."

Frei Betto

Hidrelétrica no Xingu: o trem fantasma e o chabu


Ecologia
Oswaldo Sevá
Qui, 22 de abril de 2010 18:45

Usina de Belo Monte, no Xingu


O projeto da mega-usina hidrelétrica é bem chamado de Belo Monstro pela garotada de Altamira, pelos ribeirinhos índios e não índios do Xingu paraense e por alguns de nós adultos brancos ainda combatentes da ditadura e da destruição movida pelo capital.

Vai se confirmando o que eu escrevo há anos: mentira em cima de mentira, um dia pode desabar.

O propagandista nazista Goebbels dizia que a mentira sempre repetida torna-se verdade. Mas nem sempre ele acerta.

Quarta feira, dia 14 de abril, começou a circular a notícia de que, mais uma vez, o juiz federal de Altamira, no Pará, Antonio Carlos Campelo, havia acolhido a liminar de uma Ação Civil Pública movida por procuradores federais e determinado a suspensão da Licença Prévia ambiental do projeto Belo Monte, que havia sido concedida pelo IBAMA em fevereiro, e o cancelamento do leilão da eletricidade futura da hipotética usina, marcado para terça-feira, dia 20 de abril, pela Aneel - sim, aquela que merece o nome de Agência dos Negócios da Energia Elétrica.

Segundo o site da UOL na mesma data, "além de suspender a licença prévia e cancelar o leilão, o juiz ordenou que o Ibama se abstenha de emitir nova licença, que a Aneel se abstenha de fazer novo edital e que sejam notificados o BNDES e as empresas Norberto Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Vale do Rio Doce, J. Malucelli Seguradora, Fator Seguradora e a UBF Seguros. A notificação, diz o juiz, é 'para que tomem ciência de que, enquanto não for julgado o mérito da presente demanda, poderão responder por crime ambiental'. As empresas também ficam sujeitas à mesma multa arbitrada contra a Aneel e o Ibama em caso de descumprimento da decisão: R$ 1 milhão, a ser revertido para os povos indígenas afetados."

A reversão dessa decisão judicial pelos advogados do executivo barrageiro lulista-sarneysista a serviço do capital hidrelétrico transnacional seria apenas uma questão de dias.

Como num verdadeiro trem-fantasma de parque de diversão, a cada curva uma surpresa. Nem sempre as informações usadas por um foram percebidas ou utilizadas pelos outros. É o caso da matéria do grande jornalista paraense Lúcio Flavio Pinto, intitulada "Belo Monte: lago cresceu", publicada em seu Jornal Pessoal no. 462 da primeira quinzena de abril: "No EIA-RIMA, a área do reservatório sofre uma ligeira correção para 515 km quadrados. Mas, no edital de licitação da obra, houve um reajuste ainda mais acentuado, para 668 km². A evolução, a parir da primeira versão do novo projeto, já passou de 50%. Embora em valores absolutos a diferença não seja tão expressiva, o percentual é alto demais para que a dança de números transcorra sem explicações. E até mesmo sem cobranças, já que os opositores do projeto não parecem ter observado a mutação".

Meu recado para quem anda articulando mais uma Ação Civil Pública, a qual corre o risco de, como as demais, apenas 'fazer as coisas menos mal feitas', eis um bom motivo para enquadrar o crime de falsidade ideológica, já que a Licença Prévia diz um número e o edital diz outro, e ambos foram paridos pelo mesmo poder. A não ser que se decida que a Agência de Negócios Elétricos não faz parte de nenhum poder...

Bem, do jeito que vai, acabará sendo como a obra de Jirau no rio Madeira, onde, depois de obtidas a Licença Prévia e a Licença de Instalação, as transnacionais barrageiras mudaram o eixo de barramento quase dez quilômetros rio abaixo, o que provocará o alagamento de terras e a expulsão de moradores nunca previstos nem estudados no EIA.

Ou então... Vai dar chabu! Salvo engano excepcional, do qual me redimirei se preciso, as pistas que levam ao chabu geral são:

1. O investimento seria da ordem de 30 bilhões de reais, mas o governo insiste com valores de 18, 19, 22 bilhões, nessa faixa. Ninguém sabe de fato o custo dos canais imensos concretados, 500 metros de largura, 20 metros de profundidade, nem das dezenas de diques laterais que formariam as cinco represinhas dos igarapés afluentes da margem esquerda do Xingu no interior da Volta Grande.
A colunista Miriam Leitão repercutiu isso no dia 10, logo após a desistência das duas maiores empreiteiras em participar do leilão: "Sobre Belo Monte, recaem muitas dúvidas. De toda ordem: financeira, ambiental, de engenharia. Isso é que está assustando investidores. 'Há um canal gigantesco que precisa ser feito, cujo estudo nunca foi feito adequadamente. Não se sabe se esse terreno é 90% pedra e 10% terra, ou o contrário. O custo do canal vai depender da natureza desse terreno', diz Mario Veiga, presidente da PSR".

2. O maior roubo já articulado pelos honoráveis bandidos: seja o que for, nenhum grande banco privado quis entrar, o governo obriga o BNDES a bancar sem os técnicos do banco terem analisado detalhadamente se dá ou não retorno, o governo pressiona agora a Petros, o Funcef e a Previ - fundos de pensão dos petroleiros e dos bancários, há anos sendo dirigidos pela aristocracia cutista, para colocarem a grana, ou melhor, a pensão futura dos trabalhadores e de suas viúvas, sem o devido respaldo de análise de retorno. Enquanto isso, quase todas as grandes empresas seguradoras ficam só olhando e as concorrentes do leilão exigem que o Tesouro Nacional securitize o risco... Nem Al Capone faria tão bem.
Quando até a Miriam Leitão publica no Globo.com artigo intitulado "Na lei ou na marra" é porque o Belo Monstro também virou pauta da imprensa golpista, ou, se quiserem, da campanha serrista. Segundo ela: "Em Belo Monte, prepara-se para fazer concessões maiores para atrair investidores a qualquer preço e iniciar a obra em qualquer contexto jurídico, passando por cima de quaisquer dúvidas ambientais. Isso porque, como disse o presidente: 'Belo Monte será construída'. Talvez seja mesmo, mas antes será preciso cumprir a lei. Na marra, não será possível".

3. O risco geotécnico. Esse é o grande segredo que em 2009 alguns deixaram escapar e que agora parece ter motivado de fato a desistência da Odebrecht e da Camargo Correa, que soa incompreensível sob qualquer outro angulo. A Camargo, com o seu escritório CNEC, está insuflando os projetos no Xingu desde a década de 1970, quando, entre otras cositas, contribuía para a repressão sobre os opositores da ditadura. Mas é o corpo técnico que melhor conhece o projeto e os locais onde seria construído.
Se o risco geotécnico for o motivo, há razões: o piso da Volta Grande é a transição entre o terreno cristalino do planalto central e o terreno aluvionar da planície amazônica, tem trechos de terreno cáustico (com carbonatos de cálcio, frágil, furado, cavernoso), as lajes por onde o riozão se espalha, e às vezes mergulha por debaixo, mostram fraturas rochosas longas, profundas, em forma de mosaico, que são visíveis na morfologia da Volta Grande e talvez sejam bem mais graves por baixo da camada visível.

4. E claro, lá estão de olho os Kaiapó, alguns milhares, que sobreviveram aos massacres seculares, vieram vindo desde o Triângulo Mineiro e o sul de Goiás para o Mato Grosso e o sul do Pará, não tendo agora mais para onde ir. Conhecem os brancos melhor do que nós mesmos, e vão guerrear até morrer.

5. "Last but not least", estão no ar as campanhas do James 'Avatar' Cameron, do cantor Sting e de várias Ongs barulhentas, incluindo os aliados do bispo de Altamira, dom Erwin Krautler, e parte da sua igreja aqui e na Europa. Esse pessoal já monitora os fatos e estrila como nunca dantes ocorreu.

Os demais argumentos dissidentes (pouca energia do rio para tanta potência instalada, mais de vinte mil atingidos sem reassentamento, graves perdas ambientais, audiências públicas manipuladas e sob repressão fardada...) são justos e importantes, mas não o suficiente para fazer o projeto naufragar. Fica a incógnita se a candidatura Dilma naufraga junto ou não.
Por enquanto, a aliança petista-sarneysista, da qual Belo Monstro virou emblema, está somente fazendo água, levando susto a cada curva.

Oswaldo Sevá é professor da Universidade Estadual de Campinas, engenheiro, doutor em Geografia Humana pela Universidade de Paris-I, colaborador dos ameaçados e dos atingidos pelas barragens, estudioso de hidrelétricas há 35 anos e do projeto Belo Monte há 22 anos.

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domingo, 25 de abril de 2010

MENSAGEM DA SEMANA

"DEVEMOS OPOR AO PESSIMISMO DA RAZÃO O OTIMISMO DA VONTADE"
Antonio Gramsci

A mecânica das águas

Habitação e Saneamento
Leo Lince
Qui, 15 de abril de 2010 12:40

Por acaso, azar ou ironia do destino, o presidente Lula estava no Rio de Janeiro quando o manto da tragédia envolveu a cidade. Tinha vindo para o de sempre (sapatear em palanques), mas a fúria dos elementos naturais estragou-lhe a festa. As obras que veio inaugurar estavam inundadas e, no calvário imenso da comoção coletiva, reduzidas à sua diminuta condição de vitrine.

Diante da reversão de expectativas, o presidente, constrangido, deu entrevistas ao lado do governador Cabral, desarvorado. Um jogral de impropriedades, um gravame a mais no doloroso momento. Culparam a chuva e a natureza. Todos sabem que as encostas e as montanhas, o mar e as marés, as águas de março que fecham o verão são componentes perpétuos da cidadela de São Sebastião. Culparam os governos anteriores. No caso do Lula, o governo federal anterior é o dele mesmo, e o clã dos garotinhos não governaria o Rio sem o seu apoio decisivo. E, suprema ignomínia, culparam as vítimas. O governador Cabral teve o desplante de afirmar que a multidão de miseráveis segregados em áreas de risco, como já dissera antes que mãe favelada é matriz de bandidos, lá estão por serem portadores de "ímpetos suicidas".

São outras as causas da tragédia. Não se trata de castigo de Deus, obra da natureza, nem culpa das vítimas. Um estudioso, o professor Luiz César Ribeiro, coordenador do Observatório das Metrópoles, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirmou categórico: "a tragédia do Rio é fruto da gestão urbana equivocada". Segundo ele, "os governantes são comandados por elites que se orientam por uma concepção gerencial que pretende tratar as cidades como se fossem empresas". O diagnóstico dos problemas e as equações capazes de solucioná-los estão ao alcance da mão em nossos centros de excelência em pesquisa. Se não rende lucro rápido aos magnatas da especulação imobiliária, que são também grandes financiadores de campanhas eleitorais, o projeto não sai da prancheta.

A outra faceta da nossa sereníssima República, que começou mal em Canudos e segue assentada sobre a mais brutal desigualdade, é a força insuspeitada do povo diante da dor indizível. Em fração de segundos a servidão ser transfaz em grandeza. Cava a terra com as mãos para salvar os vizinhos e abre clareiras de luz para a solidariedade comunitária. É antes de tudo um forte, como o sertanejo de Euclides da Cunha. Aliás, o cenário da tragédia em tudo nos faz lembrar os sertões de Euclides e Antonio Conselheiro. O termo "favela" nos veio de Canudos. As primeiras ocupações em nossas encostas, feitas por recrutas desmobilizados e abandonados ao Deus dará, resultaram do rescaldo daquela guerra contra a pobreza criminalizada.

A nossa metrópole, urbe monstruosa, também é uma "Troia de taipa", onde a maioria excluída continua a padecer no vale de lágrimas. No essencial, tudo segue no mesmo diapasão. A miséria material em que vive a maioria e a miséria moral dos governantes são o verso e reverso da mesma medalha. Dimensões distintas do mesmo mar de lama posto em destaque pela mecânica das águas.

Léo Lince é sociólogo e cientista político

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domingo, 18 de abril de 2010

FRASE DA SEMANA

NUNCA DUVIDE DA CAPACIDADE DE UM PEQUENO GRUPO DE DEDICADOS CIDADÃOS PARA MUDAR OS RUMOS DO PLANETA. NA VERDADE, ELES SÃO A ÚNICA ESPERANÇA PARA QUE ISSO POSSA OCORRER.”

Margareth Mead
Antropóloga norte-americana

O TRISTE ESPETÁCULO – UMA NOVELA ANUNCIADA

Nestas últimas semanas a população de Cabo Frio está assistindo perplexa e estarrecida a todos os tipos de baixarias políticas, envolvendo os mais variados atores. Marquinho, Alair, Delma e Cia têm nos brindado com inúmeras lições de como fazer política com “ p “ minúsculo, mostrando claramente, a falta de compromisso com a população de nossa cidade. A mídia local noticia fartamente sobre todos os fatos. Interesses pessoais e de grupos se sobrepõem aos desejos e necessidades de nossa população. Uma pergunta, entretanto, não vem sendo feita pela mídia. Qual a resposta que a população vai dar a esta esculhambação ?
É triste ver algumas pessoas dizerem que política é assim mesmo, logo, devemos nos conformar com todas estas atitudes. Não podemos aceitar esta opinião, sob pena de abrirmos mão da esperança de promovermos as mudanças necessárias para varrer da vida pública pessoas que não corresponderam as expectativas do nosso voto. Estes fatos lamentáveis mostram como é importante deixar de lado a alienação política, achar que este tipo de discussão não é importante para nossa batalha do cotidiano. Tudo depende de decisões políticas, já dizia Bertolt Brecht, no século passado, com o seu poema “ O analfabeto político “. Quem não está atento e informado, certamente, sofrerá muito mais as conseqüências de atos políticos negativos
Se navegar é preciso, renovar também se faz necessário. A resposta da pergunta acima, necessariamente, passará por esta questão. Que tipo de renovação estamos dispostos a fazer ?
Não se pode discutir apenas nomes, até porque, estes grupos que brigam pelo poder na cidade têm outros nomes para oferecer como reposição. A reflexão maior deve ser em cima da troca do modelo de gestão pública, caso contrário, estes nomes de reposição serão como trocar seis por meia dúzia.
Este modelo de gestão implantado em nossa cidade há décadas está caindo de podre. Fisiologismo; assistencialismo sem cidadania; falta de transparência com os gastos públicos; inchaço da máquina pública com nomeações fraudulentas e eleitoreiras; falta de políticas públicas essenciais na saúde, educação, saneamento e habitação popular; falta de uma política ordenada para geração de emprego e renda: descaso com o patrimônio cultural; falta de planejamento urbano e uma política voltada para a nossa principal vocação que é o turismo, além de outras questões, nos colocam diante deste desafio de romper com esta forma pequena de fazer política.
Entristece ainda mais, saber que temos o quarto ou quinto maior orçamento do Estado, mostrando que o problema não é falta de recursos, e sim, incompetência e desvio acintoso dos recursos públicos, basta ver os sinais claros de enriquecimento de alguns que ocupam o poder. Qual a resposta que a população vai dar a esta esculhambação ?
Se continuarmos apostando nos mais famosos, sem avaliar o seu conteúdo, se continuarmos vendendo nosso voto por um benefício fugaz e imediato, se continuarmos não prestando atenção no debate político da cidade, avaliando sobre tudo propostas, se continuarmos colocando nosso interesse pessoal em detrimento do interesse coletivo, não vamos dar resposta nenhuma. Continuaremos sendo vítimas do oportunismo político, das mentiras e falsas promessas, da falta de compostura, e principalmente, da falta de planejamento e visão de futuro para nossa cidade, que se abaterá não somente sobre nossa realidade, mas também sobre a perspectiva futura dos nossos filhos e netos.


Claudio Leitão, propagandista, economista e presidente do diretório municipal do PSOL em Cabo Frio.

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sábado, 10 de abril de 2010

POEMA DA SEMANA :

O ANALFABETO POLÍTICO


O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.


Bertolt Brecht
Poeta e dramaturgo alemão

O vírus da apatia

Chico Alencar
Sex, 05 de março de 2010 10:30

É intrigante: conquistada a democracia, ainda que em transição pactuada com a ditadura civil-militar de 64/84, afinal tivemos a eleição de um sociólogo e de um metalúrgico oriundos da resistência ao regime, filiados a partidos de ideário social-democrata e socialista. Mas, na última década e meia desses governos, cresceram a despolitização e a desorganização da sociedade como um todo, e dos trabalhadores em particular. Pesquisa realizada pelo Ipsos Public Affairs em nove regiões metropolitanas, concluída em janeiro de 2010, mostra que apenas três de cada dez brasileiros conseguem identificar corretamente o nome de um ministro, um senador ou um deputado federal. A acomodação das organizações políticas e de seus líderes ao alheamento político das massas foi crescente e... interessada.

Apesar disso, "la nave va", pois as forças dominantes na economia, na política e na produção do imaginário social nacional não necessitaram, até o momento, de uma repaginação da estrutura partidária. As práticas patrimonialistas, mesclando autoritarismo, demagogia e clientelismo, e imbricando interesses privados e públicos, seguem sustentando governos e viabilizando vitórias eleitorais. Todos, "modernos" e "atrasados", num assemelhamento crescente das legendas, navegam nas águas aparentemente tranquilas da economia. Sempre se dizendo "progressistas", controlam a vida pública brasileira, animando a "platéia" com uma polarização de fantasia nas disputas eleitorais. A anemia da cidadania crítica facilita a afirmação de personalismos e da "cultura do favor", terreno fértil para essas deformações.

Todos os grandes partidos brasileiros - e a maioria dos pequenos - são sócios nada honorários do clube da degradação política nacional, da qual o escândalo mais recente, do escabroso "mensalão" do DEM, é emblema documentado.

Esse modelo político formalmente representativo, apesar do descrédito popular (que produz mais apatia que ativismo crítico), parece intocável. Tanto FHC quanto Lula, ao longo dos últimos 15 anos, proclamaram a urgência da "mãe de todas as reformas", a política. Mas as bases de sustentação de seus governos rejeitaram essas conclamações retóricas da "vanguarda do atraso". Não se muda o que tem assegurado vitórias e "governabilidade". O Legislativo tem pouca autonomia: o Executivo continua "domesticando" a maioria dos Parlamentos, usando métodos legais e, por vezes, ilegais.

Os partidos e a própria política, no sentido lato, tornaram-se fins em si mesmos, com interesses específicos, corporativos, na defesa monolítica e monocórdia do "caminho único". Procedimentos predadores e egoístas são naturalizados.

Fora dessa rede apodrecida vigora uma espécie de neoconformismo esclarecido: "não há outro jeito de se fazer política no Brasil", reza o senso comum distópico. Mas ainda há quem aposte em participação, formulação de programas e mobilização em torno de ideais e causas. Nem tudo está perdido.

Chivo Alencar é professor e deputado federal (PSol-RJ)

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terça-feira, 6 de abril de 2010

FRASE DA SEMANA

“ A JUVENTUDE SE RECONHECE POR TRÊS SINAIS ESSENCIAIS : A VONTADE DE AMAR, A CURIOSIDADE INTELECTUAL E O ESPÍRITO DE AUDÁCIA.”

Autor desconhecido

Classe média num país injusto

Escrito por Frei Betto
06-Mar-2010



A população brasileira é, hoje, de 190 milhões de pessoas, divididas em classes segundo o poder aquisitivo. Pertencem às classes A e B as de renda mensal superior a R$ 4.807 – os ricos do Brasil.



R$ 4.807 não é salário de dar tranqüilidade financeira a ninguém. O aluguel de um apartamento de dois quartos na capital paulista consome metade desse valor. Mas, dentre os ricos, muitos recebem remunerações astronômicas, além de possuírem patrimônio invejável. Nas grandes empresas de São Paulo, o salário mensal de um diretor varia de R$ 40 mil a R$ 60 mil.



Análise recente da Fundação Getúlio Vargas, divulgada em fevereiro último, revela que integram esse segmento privilegiado apenas 10,42% da população, ou seja, 19,4 milhões de pessoas. Elas concentram em mãos 44% da renda nacional. Muita riqueza para pouca gente.



A classe C, conhecida como média, possui renda mensal de R$ 1.115 a R$ 4.807. Tem crescido nos últimos anos, graças à política econômica do governo Lula. Em 2003 abrangia 37,56% da população, num total de 64,1 milhões de brasileiros. Hoje, inclui 91 milhões – quase metade da população do país (49,22%) – que detêm 46% da renda nacional.



Na classe D – os pobres – estão 43 milhões de pessoas, com renda mensal de R$ 768 a R$ 1.115, obrigadas a dividir apenas 8% da riqueza nacional. E na classe E – os miseráveis, com renda até R$ 768/mês – se encontram 29,9 milhões de brasileiros (16,02% da população), condenados a repartir entre si apenas 2% da renda nacional.



Embora a distribuição de renda no Brasil continue escandalosamente desigual, constata-se que o brasileiro, como diria La Fontaine, começa a ser mais formiga que cigarra. Graças às políticas sociais do governo, como Bolsa Família, aposentadorias e crédito consignado, há um nítido aumento de consumo. Porém, falta ao Bolsa Família encontrar, como frisa o economista Marcelo Néri, a porta de entrada no mercado formal de trabalho.



Dos 91 milhões de brasileiros de classe média, 58,87% têm computador em casa; 57,04% freqüentam escolas particulares; 46,25% fazem curso superior; 58,47% habitam casa própria. E um dado interessante: o aumento da renda familiar se deve ao ingresso de maior número de mulheres no mercado de trabalho.



Já foi o tempo em que o homem trabalhava (patrimônio) e a mulher cuidava da casa (matrimônio). De 2003 a 2008, os salários das mulheres cresceram 37%. O dos homens, 24,6%, embora eles continuem a ser melhor remunerados do que elas.



Segundo a Fundação Getúlio Vargas, o governo Lula tirou da pobreza 19,3 milhões de brasileiros e alavancou outros 32 milhões para degraus superiores da escala social, inserindo-os nas classes A, B e C. Desde 2003, foram criados 8,5 milhões de novos empregos formais. É verdade que, a maioria, de baixa remuneração.



No início dos anos 90, de nossas crianças de 7 a 14 anos, 15% estavam fora da escola. Hoje, são menos de 2,5%. O aumento da escolaridade facilita a inserção no mercado de trabalho, apesar de o Brasil padecer de ensino público de má qualidade e particular de alto custo.



Quanto à educação, estão insatisfeitas com a sua qualidade 40% das pessoas com curso superior; 59% daquelas com ensino médio; 63% das com ensino fundamental; e 69% dos semi-escolarizados (cf. "A classe média brasileira", Amaury de Souza e Bolívar Lamounier, SP, Campus, 2010).



A escola faz de conta que ensina, o aluno finge que aprende, os níveis de capacitação profissional e cultural são vergonhosos comparados aos de outros países emergentes. Quem dera que, no Brasil, houvesse tantas livrarias quanto farmácias!



Hoje há mais consumo no país, o que os economistas chamam de forte demanda por bens e serviços. Processo, contudo, ameaçado pela instabilidade no emprego e o crescimento da inadimplência – a classe média tende a gastar mais do que ganha, atraída fortemente pela aquisição de produtos supérfluos que simbolizam ascensão social.



A classe média ascendente aspira a ter seu próprio negócio. Porém, o empreendedorismo no Brasil é travado pela falta de crédito, conhecimento técnico e capacidade de gestão. E demasiadas exigências legais e trabalhistas, somadas à pesada carga tributária, multiplicam as falências de pequenas e médias empresas e dilatam o mercado informal de trabalho.



Embora a classe média detenha em mãos poderoso capital político, ela tem dificuldade de se organizar, de criar redes sociais, estabelecer vínculos de solidariedade. Praticamente só se associa quando se trata de religião. E revela aversão à política, sobretudo devido à corrupção.



Descrente na capacidade de o governo e o Judiciário combaterem a criminalidade e a corrupção, a classe média torna-se vulnerável aos "salvadores da pátria" - figuras caudilhescas que lhe prometam ação enérgica e punições impiedosas. Foi esse o caldo de cultura capaz de fomentar a ascensão de Hitler e Mussolini.



Reduzir a desigualdade social, assegurar educação de qualidade a todos e aumentar o poder de organização e mobilização da sociedade civil, eis os maiores desafios do Brasil atual.
 



Frei Betto é escritor, autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros.

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