quinta-feira, 19 de novembro de 2015

PARIS E MARIANA




Paris tem 2,2 milhões de habitantes. Mariana 58 mil. Ambas são lindas e estão enlutadas. O gosto amargo da dor vem da violência que sofreram. São de naturezas distintas, mas nenhuma das atrocidades é natural.

Em Paris morreram, até aqui, 130 pessoas, alvejadas no espaço de meia hora. Não há causa, ideologia, visão de mundo que justifique a chacina covarde de tantos inocentes. As guerras do século passado tinham alvos militares e palcos de combate. Agora, o terror ataca onde quer e a quem quer, para impactar. Jovens que namoravam, dançavam, bebiam, cantavam, faziam planos ou apenas riam tiveram suas vidas ceifadas abruptamente.

As potências ocidentais, em suas políticas para outras áreas do mundo, costumam nutrir seus adversários, chocar o ovo da serpente. Por interesses geopolíticos e econômicos, os EUA já apoiaram Bin Laden e Sadam. Por interesses econômicos e geopolíticos, países ocidentais, como a França, armaram grupos que queriam derrubar Assad, na Síria. Parte deles agora constitui o Estado Islâmico, empenhado na construção do seu ‘califado’ de barbáries.

Em Mariana foram destruídas casas, rios e vidas – humanas e animais. As sequelas durarão um século!

A mineradora Samarco/Vale, como quase todas do ramo, quer lucros, ao custo de intervenções que agridem a paisagem. Os pobres que encontrem lugar para morar, mesmo que seja a dois quilômetros das barragens. Sem acompanhamento técnico, elas podem romper. E romperam!

A onda de lama tóxica matou gente e se alonga de Minas Gerais ao Espírito Santo. Minas de desgraças gerais, Espírito Santo onde a destruição produz um novo estado de espírito: apreensão. Poucas vozes, porém, têm coragem de dizer: “essa sanha de lucros não vale, Vale!”

O papa Francisco repete que estamos vivendo a 3ª Guerra Mundial em etapas. Guerra entre culturas, países, interesses. Guerra de destruição do planeta, em que estão em campos opostos o sistema de produção e consumo predatório, insustentável, e os que acreditam em um outro mundo possível, onde o realmente necessário será o suficiente.

Nada de fazer ranking macabro do que mais mata: cada assassinato de um ser humano ou de um ecossistema é tragédia. A Humanidade está perdendo a batalha para o ódio, a ânsia de vingança, o afã do ganho a qualquer preço. Em Paris, jovens encapuzados e fanatizados deixaram um rastro de sangue, eliminando mais de uma centena, quase todos jovens. Em Mariana, a tenebrosa máscara de lama destruiu vidas, povoados e mananciais. O rastro marrom segue seu curso devastador.

É urgente dizer NÃO!


Chico Alencar é professor de história e deputado federal pelo PSOL-RJ.

5 comentários :

  1. Só um reparo que acho pertinente fazer à publicação. Mesmo no século passado as guerras não tinham só alvos militares, e desastres na natureza aconteceram por conta delas. O Vietnam, com os seus agentes laranja desfolhando florestas, e a invasão das vilas, representadas pela célebre foto da menina correndo queimada por napalm, mostra bem que o século XX foi tão ruim quanto este século, E existem muitos outros exemplos, sendo a perseguição aos judeus, aos comunistas e outras minorias feita pelo nazismo, e os jogando em campos de concentração um outro dramático exemplo. Civis que nada tinham de militares, e detinham apenas um fenótipo particular (para não usar a palavra raça), ou eram detentores de uma ideologia. Eram apenas esses os seus "crimes".

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  2. Leitão, achei umm dos melhores texto do Chico. Uma capacidade de síntese maravilhosa.
    Paulo Campos

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